
O Período Suevo-Visigodo
No início do outono de 409, Suevos, Alanos e Vândalos atravessaram os Pirenéus e entraram na Hispânia, chegando à Lusitânia e à Galécia. Não muito tempo depois Idanha é integrada no recém-criado Reino Suevo que durará até 585, quando os Visigodos o derrubam e unificam toda a Península.
A destruição da porta sul da cidade (descoberta recentemente em escavações pelos arqueólogos) parece estar relacionada com estas alterações políticas que determinaram o fim do Império Romano na Península Ibérica no início do século V.
Estes foram tempos conturbados. Os tempos da chegada dos “povos bárbaros”, como os romanos chamavam a estes povos germânicos que emigraram desde os atuais territórios da Hungria, Áustria e Eslovénia: barbarus era o nome dado pelos antigos romanos aos estrangeiros que não falavam latim, não partilhando a cultura e os modos de vida romanos.
Em Roma, a pressão germânica faz cair o último imperador em 476 e pôs fim ao Império Romano do Ocidente.
O Édito de Milão (313), que estabeleceu a liberdade de culto e pôs fim à perseguição dos cristãos, e o Édito de Tessalónica, promulgado pelo imperador hispânico Teodósio I, em 380, e no qual se proclamou o cristianismo como religião oficial do Império Romano, são peças fundamentais da afirmação do Cristianismo.
Este foi-se expandindo e no século V já tinha chegado aos quatro cantos do antigo Império. O cristianismo, todavia, era vivido de formas muito diversas, pelo que era indispensável institucionalizar e garantir a normalização da nova religião dominante.
Neste século V, com as invasões dos barbarus e o triunfo do cristianismo, já nada voltaria a ser como antes.
A Cidade Sueva
Após anos turbulentos de conflitos entre os diversos povos germânicos e o que restava do poder imperial na Península, os Suevos conseguiram estabelecer-se e consolidar seu domínio sobre um território alargado que integrava as províncias da antiga Galécia e parte da Lusitânia.
A Idanha passou então a fazer parte do reino Suevo, o primeiro reino cristão romano-germânico do Ocidente, cuja sede da corte se encontrava em Bracara (atual Braga).
Idanha com os Suevos passa a ser designada de Egestanea e, mais adiante, no século VI, de Egitania.
A cidade reorganiza-se, surge um novo espaço urbano rodeado pela muralha e estruturado em redor de uma igreja. O novo centro de poder veio substituir o principal espaço público da cidade romana, o fórum, em ruína e abandonado desde o século IV.
As Primeiras Igrejas
Este tempo suevo-visigótico é também o tempo das primeiras igrejas. É possível que os primeiros templos cristãos da cidade estejam sob a atual Sé ou igreja de Santa Maria, junto da qual estão os dois batistérios.
Alguns muros que podemos observar, sugerem-no, mas apenas futuras escavações arqueológicas poderão vir a descobrir os restos destas prováveis primeiras igrejas, em torno do qual o cristianismo se consolidou.
Os Batistérios
Na Idanha são conhecidos dois batistérios, um dos quais datado como sendo o mais antigo conhecido até ao momento na Península Ibérica. A construção da primeira piscina batismal é de meados do século IV. Pouco mais de 50 anos depois, nos inícios do século V, esta primitiva piscina de batismo é abandonada e constrói-se um novo batistério, com uma piscina de planta em cruz.
O batismo neste período é feito por imersão, imitando o batismo de Cristo no rio Jordão. Por isso se construíram este tipo de piscinas. Os convertidos a Cristo (catecúmenos) eram batizados no dia de Páscoa e só depois do ritual podiam entrar nos templos para assistir à sua primeira missa.
Egitania, Sede de Bispado
A Idanha no tempo dos Suevos não perdeu a sua importância. Foi uma das sedes episcopais do reino. Não sabemos ao certo desde quando, já que a primeira menção segura a um bispado da Egitania data de 572, ano em que se realizou o II Concílio de Braga, no qual participou D. Adoricus, bispo egitaniense, o primeiro cujo nome conhecemos.
Neste período suevo-visigótico a Idanha seria gerida pelos bispos e as suas cortes. Era também o bispo que estabeleceria a ponte entre a cidade e a sede do reino.
Conhecemos mais oito nomes de bispos da Idanha através da sua participação em diversos concílios eclesiásticos realizados, em Toledo e em Mérida, entre 585 e 711.
Parte das ruínas que se podem observar ao lado da atual Sé/Igreja de Santa Maria são precisamente deste período e devem corresponder a parte de um conjunto palatino pertencente ao bispado da Egitania visigoda.
O Parrochiale Suevum
O bispado da Idanha é referido num documento datado entre 572 e 582. Este ficou conhecido como Parrochiale Suevum por registar uma lista de diocese e igrejas (dependente das dioceses) existentes no reino suevo.
Na dependência da igreja egitaniense estariam duas igrejas denominadas de Monecipio e Francos. Muitas hipóteses foram sugeridas para a sua localização, mas nenhuma é suficientemente consensual. Apesar de desconhecermos a localização, sabemos que em Monecipio foi cunhada moeda de ouro durante o reinado dos reis visigodos Recaredo e Sisebuto.
A Cidade Visigótica
Os Visigodos, apesar de serem também considerados um “povo bárbaro”, chegam à Península Ibérica em meados dos séculos V pela mão do imperador romano Ávito, como federados romanos, com a missão de ajudar o Império a recuperar a Península Ibérica. Rapidamente iniciam a conquista da península, não só do espaço que os Romanos ainda controlavam, como combatendo os outros povos germânicos que, entretanto, se haviam instalado.
Durante cerca de 100 anos os Visigodos conviveram com o reino suevo a ocidente, e com os bizantinos instalados a sul. Mas em 585, sob a égide do rei visigodo Leovigildo, unificam a península. A Idanha é então integrada no reino visigodo até 711, momento em que o reino visigodo sucumbiu ao avanço dos muçulmanos.
A cidade poderá ter conhecido em época visigoda novos investimentos, traduzindo-se na construção de novas igrejas ou beneficiação do conjunto palatino episcopal.
A Moeda de Ouro
Na Egitania, foram cunhadas moedas de ouro conhecidas como tremisses. Vários reis visigodos emitiram moeda nesta cidade, desde Recaredo (586-601) até Rodrigo (710-711), o último monarca visigodo.
Quase todos os reis desse período cunharam moedas sob sua égide em Idanha, tornando-a uma das mais prolíficas casas de cunhagem de ouro da época visigoda. A continuidade da emissão de tremisses na casa da moeda da Egitania evidencia a importância e o poder político da cidade. Além disso, a sua localização numa região aurífera, amplamente explorada durante o domínio romano, certamente contribuiu para essa intensa atividade de cunhagem.
A Lenda do Rei Wamba
A tradição diz que Wamba, rei dos Visigodos, terá nascido em Idanha. A lenda associa-o a um grande freixo que ainda hoje pode ser observado nas proximidades da aldeia. O mesmo terá brotado de forma milagrosa de uma vara seca que o rei espetou na terra, demostrando assim o carácter divino do rei. Wamba foi rei entre 672 e 680, mas a lenda que o liga à Idanha será bastante mais tardia.
Também se diz que S. Dâmaso, Papa em Roma entre 366 e 384, teria nascido em Idanha-a-Velha. A origem da lenda é desconhecida e sobre o seu nascimento apenas sabemos que pode ter ocorrido na Lusitânia por volta de 305, já que seus pais eram originários desta província. Terá ido ainda em criança para Roma onde fez o seu percurso e se tornou um importante papa do início do Cristianismo.
A ligação de Idanha-a-Velha a essas duas figuras históricas por meio de lendas revela que há uma memória coletiva que subsiste e que aponta para a importância histórica e patrimonial desta antiga cidade.







