
O Período Romano
O período romano no nosso país corresponde a quase 500 anos de história. Foi um tempo de profundas transformações. Uma nova língua, o latim, que está na origem da língua que falamos. Novas formas de construir, que passaram também pelo uso de novos materiais de construção, como as telhas e os tijolos ou o primeiro cimento. Novos hábitos do quotidiano, como o requintado banho nas termas. Novos cultivos que se generalizam, como o da vinha ou da oliveira e também do centeio. Novas árvores de fruta, como o pessegueiro e a ameixeira. Uma primeira moeda, a moeda romana, que era moeda única e que circulava por todo o amplo mercado comum do Império. Ou a extensa rede de estradas que ligam as novas e incontáveis cidades. Também o livro, tal como nós o conhecemos, tem cerca de dois mil anos de idade. A Roma Antiga transmitiu-nos ainda, por exemplo, as ideias de liberdade e cidadania. E muitíssimas outras novidades que marcam esse tempo que está na origem do nosso.
Idanha-a-Velha foi uma das cidades do vasto Império Romano: um dos maiores impérios da antiguidade, estendendo-se por três continentes, da Europa ao norte de África e ao Médio Oriente, abarcando, total ou parcialmente, cerca de 40 países atuais.
A cidade de Igaedis
Há dois mil anos a aldeia de Idanha-a-Velha foi cidade. E foi cidade capital de um distrito administrativo romano: foi a capital da civitas Igaeditanorum. O seu território estendia-se desde o rio Tejo às serras da Gardunha e da Malcata, abrangendo quase todo o atual distrito de Castelo Branco.
Igaedis, o nome provável da cidade romana, foi fundada no final do século I a.C., talvez por volta do ano 20 a.C., numa colina rodeada pelo do rio Ponsul e vazia de povoamento anterior. Quando foi fundada era Augusto imperador em Roma.
A cidade, localizada estrategicamente no trajeto de uma importante estrada que ligava Mérida (capital da província romana da Lusitânia) a Braga, e que fazia a travessia do Tejo na ponte de Alcântara, e do Erges na ponte de Segura, tornou-se a principal cidade romana entre o Tejo e o Douro, na atual Beira Interior.
A importância da cidade romana mostra-se em significativas construções, como a muralha e o templo do fórum, que resistiram ao desgaste provocado pelo tempo e pelos homens.
Outros edifícios públicos foram construídos na cidade. São reveladores do modo de vida romano, mas também reflexo da importância de Igaedis: umas termas públicas, localizadas no lado sul da cidade, voltadas ao rio, e cuja escavação futura poderá tornar visitáveis; um provável anfiteatro, onde teriam lugar as famosas lutas de gladiadores, mas que não foi ainda descoberto.
Museu Virtual (inscrições romanas)
A importância da cidade antiga também se revela através de um excecional conjunto de inscrições romanas. São quase 300 inscrições: o conjunto mais numeroso em território português e um dos mais numerosos de toda a península ibérica, de toda a Hispânia romana.
Estas Inscrições datam quase todas dos séculos I e II e testemunham uma das muitas novidades desse tempo: a língua latina, escrita e falada, e das letras que hoje nos acompanham.
Inscrições Funerárias
Muitas destas inscrições gravadas na pedra são funerárias. Assinalavam as sepulturas que ladeavam a estrada na saída de Igaedis, para lá da muralha. Nelas se pode ler o nome da pessoa sepultada, assim como a idade com que morreu e o nome da pessoa (quase sempre familiar próximo) que mandou gravar nessa lápide uma inscrição em memória do defunto.
A inscrição termina, por vezes, com uma fórmula, em sigla, por ser conhecida de todos:
HSE STTL
Hic Situs Est. Sit Tibi Terra Levis
Aqui jaz. Que a terra te seja leve!
O que estava escrito era para ser lido sempre em voz alta por aqueles que passavam por esses caminhos. No mundo antigo a escrita era para ser ouvida.
Inscrições Votivas
Nas cidades constroem-se templos em tudo semelhantes aos de Roma. Aos novos templos juntam-se os novos deuses vindos de Roma, encabeçados por Júpiter, enquanto as velhas divindades indígenas (pré-romanas) permanecem nas áreas rurais, mantendo-se assim os cultos de sempre e respeitando-se as crenças locais. Ambos, novos e velhos deuses, são venerados tanto por cidadãos romanos, mesmo aqueles cuja família se deslocou para estas terras desde muito longe, como pela população local com antepassados nativos.
Nestas inscrições gravadas na pedra (para durarem para sempre) cumprem-se promessas e pede-se a proteção divina, tanto em espaço público como no recato do lar. Nestes altares utiliza-se o latim e usam-se fórmulas religiosas latinas.
Em Idanha conhecem-se inscrições dedicadas a Júpiter, Marte, Vénus e Vitória.
Inscrições. A sociedade
Em época romana a grande maioria da população que vivia em Igaedis seria indígena. Os seus antepassados teriam uma origem local. A população vinda de fora, nomeadamente os emigrantes itálicos (os romanos propriamente ditos), representariam uma percentagem muito diminuta no conjunto da população. A epigrafia, tanto funerária como votiva, revela-nos o nome de alguns destes homens e mulheres, e, inclusivamente, o seu estatuto sociojurídico e as suas relações de parentesco.
Inscrição do Relógio
Uma inscrição datada de 16 a.C. regista a oferta oficial e solene de um relógio (possivelmente um relógio de sol) aos Igaeditani por Quintus Tallius, um cidadão vindo de Mérida (Augusta Emerita), recém-fundada capital da província romana da Lusitânia.
A representar Idanha, nesse longínquo ano de 16 a.C., surgem os nomes de quatro homens, todos indígenas: Toutono, filho de Árcio; Malgeino, filho de Mânlio; Célcio, filho de Arantónio; Amino, filho de Ácio. Estes são os nomes dos magistrados (representantes políticos) mais antigos que se conhecem nesta cidade e em toda a região da Beiras. Esta inscrição romana é também uma das mais antigas que se conhecem em território português.
A inscrição do relógio prova que no final do século I a.C. Idanha já era cidade romana e que a hora da Idanha, a partir de então, passa a ser a hora de Roma, a hora do Império.
Transcrição:
Q(uintus) · Tallius · Sex(ti) · f(ilius) · Papi(ria tribu) Augu(sta Emerita) ·
orarium · donavit ·
Igaiditanis · l(ocus) a(dsignatus) · f(uit) · per · mag(isterium?) ·
Toutoni · Arci · f(ilii) ·
Malgeini · Manli · f(ilii) ·
Celti · Arantoni · f(ilii) ·
Ammini · Ati · f(ilii) ·
L(ucio) · Domitio · Aenobarbo ·
P(ublio) · Cornelio · Scipione · co(n)[s(ulibus)·]
Leitura:
Quinto Tálio, filho de Sexto, da tribo Papíria, de Augusta Emerita, deu um relógio aos igeditanos. O local foi indicado pelos magistrados Toutono, filho de Arco; Malgeino, filho de Mânlio; Célcio, filho de Arantónio; Amino, filho de Ácio, durante o consulado de Lúcio Domício Enobarbo e Públio Cornélio Cipião.
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Inscrição de homenagem a Gaio César
Pedestal (base) de estátua dedicado pela cidade dos Igeditanos a Gaio César, neto e filho adotivo do imperador Augusto, o primeiro imperador de Roma. Gaio César, juntamente com o seu irmão Lúcio, eram filhos da única filha de Augusto. Acabariam por não suceder ao avô (Augusto não teve filhos) por terem falecido ainda muito jovens. Gaio César faleceu em 4 d.C., depois de ter sido ferido numa campanha militar a Oriente.
Datada de 3 ou 4 d.C., esta base de estátua é historicamente importante porque a comunidade local regista oficialmente a sua designação romana como ciuitas Igaeditanorum. É também importante porque mostra que na comunidade dos Igeditanos já se vivia nesses anos um ambiente de exaltação da família imperial que está na origem do culto ao imperador e à sua família.
Transcrição:
C(aio) · Caesari Augusti · f(ilio)
pontif(ici) · co(n)s(uli) · imp(eratori)
principi · iuventutis
ciuitas Igaedit(anorum)
Leitura:
A Caio César, filho de Augusto, pontífice, cônsul, imperador, príncipe da juventude - a civitas Igaeditanorum. A cidade dos igeditanos.
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Inscrição a Marte
Em Idanha conhecem-se quatro inscrições com dedicatórias a Marte, divindade romana relacionada com a guerra e o exército.
Esta inscrição é uma delas: trata-se de um altar dedicado a Marte pelo liberto Flauius Ariston, funcionário público de grau elevado que prestava serviço nesta cidade em representação do império.
Era sobre estas aras ou altares epigrafados (gravados com os nomes do deus e da pessoa que lhe prestava culto) que as chamadas libações tinham lugar – ou seja, nestes rituais as orações eram acompanhadas pela queima de incenso ou de ervas aromáticas, e ao divino oferecia-se vinho, leite, mel, ou então os primeiros frutos de uma colheita.
Transcrição:
Marti / Flavius
Igaedit(anorum) lib(ertus)
Ariston
Leitura:
A Marte. Flávio Ariston, liberto dos Igeditanos.
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Inscrição a Vitória
Este altar é dedicado por Maurião, filho de Márcio, a Vitória. Apresenta um nicho onde estaria uma pequena estatueta, possivelmente em bronze, desta deusa. Maurião era um nativo, sem estatuto de cidadão romano, que durante o século I terá consagrado os seus votos a uma das novas divindades vindas de Roma, a deusa Vitória. É um dos exemplos que revela a adesão da comunidade indígena à tradição religiosa romana. Os próprios nomes, tanto de Maurião como de seu pai, Márcio, já são de origem latina.
Em Idanha talvez existisse um pequeno templo dedicado a Vitória, onde estes altares seriam colocados. Mas também poderia estar colocado na casa de Maurião, fazendo assim parte do ambiente familiar de culto.
Esta peça encontra-se restaurada, tendo sido recuperados as suas cores originais e os seus motivos decorativos. A coroa de louros e o ramo de palma que se observam são símbolo do triunfo, relacionados com a deusa Vitória. As letras também estão avivadas com cor vermelha – cor habitual em todas as inscrições. Estas cores eram conseguidas com pigmentos naturais que se foram apagando ou desvanecendo com o passar do tempo. Todavia, em Idanha, certas inscrições ainda apresentam os restos desse vermelho pintado há cerca de dois mil anos para fazer sobressair as letras gravadas na pedra.
Transcrição:
Victoriae
Maurio Marci
f(ilius) v(otum) l(ibens) s(olvit)
Leitura:
A Vitória. Maurião, filho de Marco, cumpriu o voto de livre vontade.
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Inscrição do Templo de Vénus
Bloco arquitetónico que faria parte de um templo dedicado a Vénus. A inscrição que ostenta revela que Gaio Câncio Modestino, cidadão romano, um dos homens mais ilustres e endinheirados da cidade, mandou fazer às suas custas, nos finais do século I, esse templo a Vénus, assim como um outro dedicado a Marte. Ambos os templos poderão ter integrado o foro da cidade.
Transcrição:
[Vene]ris · templum
[C(aius) Canti]us · Modestinus
[ex] patrimonio · suo
Leitura:
Templo de Vénus. Caio Câncio Modestino com o seu património.
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Inscrição de Caius Curius Firmanus, cidadão romano
A sociedade romana é marcadamente hierarquizada. Sob o ponto de vista jurídico há desde logo uma distinção a fazer: por um lado, existem os escravos (servus) e os libertos (libertus); por outro, aqueles que desde o nascimento usufruem da condição livre (ingenuus). Mas homens e mulheres livres poderiam ser tanto os cidadãos romanos (ciues), como os indígenas (peregrini), não usufruindo os indígenas do conjunto de direitos que estava reservado aos cidadãos.
Pelo modo como o nome se encontra gravado (três nomes + nome do pai + nome da tribo em que foi inscrito), sabemos que Caio Curio Firmano, filho de Pullo, da tribo Quirina, era cidadão romano. Viveu em Idanha no século I e pertenceu a uma das famílias mais ilustres da cidade. O seu nome encontra-se gravado numa rica e rara placa de mármore que estaria fixada à porta do mausoléu onde foi sepultado. Lemos o que foi escrito e ficamos a saber que morreu com 63 anos e que foi a sua mulher, Curia Vitalis, que mandou gravar a inscrição ao “ótimo marido”.
Transcrição:
C(aio) Curio Pulli f(ilio)
Quir(ina) · Firmano
ann(orum) · LXIII · Curia
Vitalis marito
optimo et sibi · f(aciendum) · c(uravit)
Leitura:
A Caio Cúrio Firmano, filho de Pulo, da tribo Quirina, de 63 anos. Cúria Vital mandou fazer para si e para o marido ótimo.
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Inscrição de Iulia Varilla
Iulia Varilla pertencia a uma das mais importantes famílias de Idanha no século I. Da escultura que a representava não sobrou qualquer pedaço, mas a leitura da inscrição que resistiu à passagem do tempo permite-nos saber que seria uma figura banhada a ouro e que o seu douramento coube à mãe de Iulia Varilla. Através desta escultura, de certa forma, percebemos a importância do ouro como fonte de riqueza das principais famílias dos Igaeditani.
Os recursos mineiros terão constituído uma das principais razões para a integração da Hispânia no Império Romano. No vasto território de Idanha também existiam esses recursos. Particularmente abundante era o ouro, explorado sobretudo em grandes minas a céu aberto. Há cerca de vinte séculos no território de Idanha a exploração de ouro terá constituído a atividade económica mais importante, juntamente com a criação de gado. A própria monumentalização da cidade antiga terá sido financiada em grande medida pelas fortunas privadas que o ouro proporcionava. As pessoas ricas, especialmente as que desempenhavam cargos políticos, tinham a obrigação de fazer donativos para obras públicas.
Transcrição:
Iuliae
Varillae
Celeris · f(iliae)
L(ucius) · Iulius · Quir(ina)
Modestus
uxori statuam
cum basi · f(aciendum) · c(uravit)
Iulia Amoena
Sabini · f(ilia) · mate[r]
Auravit
Leitura:
A Júlia Varila, filha de Céler. Lúcio Júlio Modesto, da tribo Quirina, mandou fazer a estátua com base à esposa. A mãe, Júlia Amena, filha de Sabino, dourou-a.
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Inscrição de Caius Cantius Modestinus
Caio Cantio Modestino era um homem rico. Foi um dos cidadãos mais influentes da Idanha romana. O seu nome encontra-se gravado em inscrições. Sabemos que à sua custa (ex patrimonio suo) mandou construir dois pequenos templos na cidade, provavelmente junto ao fórum: um dedicado a Marte e outro a Vénus.
Templos idênticos mandou também construir numa outra cidade romana, do outro lado da Serra da Estrela, na splendidissima ciuitas, onde hoje se encontra a aldeia de Bobadela, no concelho de Oliveira do Hospital.
Caio Cantio Modestino terá feito fortuna em atividades relacionadas com as explorações de ouro. Pela sua importância as grandes minas de ouro eram geridas diretamente pelo estado romano e nelas trabalhava a população indígena que pagava o imposto devido a Roma sob a forma de dias de trabalho nas minas (ou noutras obras públicas).
Transcrição:
C(aio) Cantio Modes[to]
C(aius) Cantius
Modestinus pat[ri]
Leitura:
A Caio Câncio Modesto. Caio Câncio Modestino ao pai.
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Inscrição de Boutius, filho de Camalus
No Império romano, o estatuto sociojurídico de cada um podia observar-se na forma como escreviam o seu nome. Um indígena identificava-se apenas com um único nome (o cognome) seguido do nome do pai (o patronímico).
Boutius, filho de Camalus, era um desses indígenas que viveu na Idanha do século I. Quando morreu a sua filha mandou gravar numa pedra (numa estela que assinalava a sua sepultura) esta simples mensagem que cruzou o tempo e chegou à atualidade – escrito para sempre ficou:
Boutius, Filho de Camalus, de 70 anos. Amoena, filha de Boutius, mandou fazer ao pai.
É curioso observar que o nome do pai, Boutius, ainda que latinizado, não é na origem latino, sendo herdado de um passado pré-romano, enquanto o nome da filha, Amoena, é já um nome latino, parecendo assim revelar a adesão progressiva desta família à cultura romana.
Transcrição:
Boutius
Camali
F(ilius) AN(norum) LXX (septuaginta)
Amoen
a Bouti
F(ilia) Patri
F(aciendum) C(uravit)
Leitura:
Bócio, filho de Câmalo, de 70 anos. Amena, filha de Bôucio, mandou fazer ao pai.
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Inscrição de Anceito, filho de Célcio
O nome de um outro indígena, Anceito, (filho) de Célcio, encontra-se nesta estela que assinalava a sua sepultura. O epitáfio foi gravado em verso.
Transcrição:
Pubesce
ns · ego ·
_ nec · uerit_
us · misera
bile · funus
Anceitus ·
Celti · fata
tulei · br
evia · heic (!)
situs · heic (!)
cineres · es
te · quietei (!)
Leitura:
Ainda jovem e sem ter medo da triste morte, eu, Anceito, de Célcio, cumpri o meu breve destino. Aqui jazo. Aqui, minhas cinzas, descansai em paz.
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Inscrição de Camala
Esta singela inscrição assinalava a sepultura de Câmala. Na pedra ficou apenas gravado o seu nome. Nada mais é dito. Mas ficou a memória do seu nome. E este vive para lá do tempo na pedra em que ficou escrito.
Transcrição:
Camala Tai(i) F(ilia)
Hic S(ita) Est
Leitura:
Câmala, filha de Taio. Aqui jaz
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